Há uma pergunta que considero mais difícil do que parece: se alguém observasse a maneira como vivo, conseguiria reconhecer aquilo em que digo crer? Não me refiro a carregar uma Bíblia debaixo do braço, conhecer a linguagem da igreja ou saber responder a um questionário doutrinário. Refiro-me à pessoa que sou quando ninguém está me observando; à minha honestidade diante de uma oportunidade; ao respeito com que trato quem pensa diferente; ao cuidado que demonstro dentro de casa; à coragem de reconhecer um erro.
É fácil pronunciar a expressão “eu creio”. O desafio começa quando ela encontra a agenda lotada, as contas a pagar, os desacordos, as frustrações, as tentações e as pessoas que exigem de mim paciência. Nesse encontro entre convicção e cotidiano, a fé deixa de ser um assunto para debates e se torna uma pergunta sobre meu caráter.
Escrevo a partir da tradição cristã pentecostal das Assembleias de Deus, tendo como referência os 16 artigos do conhecido “Cremos”, sistematizados na Declaração de Fé das Assembleias de Deus, publicada pela CPAD e homologada pela CGADB em 2017. Não pretendo simplesmente repetir esse documento. Quero fazer algo mais pessoal: percorrer suas verdades centrais e perguntar o que elas exigem de mim. [1][2]
“A Bíblia é a Palavra de Deus ao homem; o Credo é a resposta do homem a Deus.”
— Philip Schaff, Creeds of Christendom, v. II, seção “Scripture Confessions”, tradução para o português. [3]
Essa distinção me orienta. Uma declaração de fé não substitui a Bíblia, não se coloca acima dela e não dispensa o estudo cuidadoso das Escrituras. Ela organiza o que uma comunidade cristã entende que a Bíblia ensina. A fonte é a Escritura; a formulação doutrinária é uma resposta humana de compreensão e confissão. Por isso, não quero acreditar por repetição mecânica, mas aprender a prestar contas do que digo crer (1 Pedro 3:15).
1. Minha fé não pode existir apenas na minha boca
O primeiro conflito que encontro não é entre religião e ausência de religião. É entre uma fé anunciada e uma fé praticada. Posso defender a santidade com convicção e agir sem honestidade no trabalho. Posso falar de amor cristão e tratar alguém com desprezo. Posso conhecer passagens sobre perdão e alimentar ressentimentos por anos. Posso cobrar dos outros o que não estou disposto a examinar em mim mesmo.
Tiago faz uma pergunta que atravessa os séculos: de que serve a fé declarada quando ela não produz ações correspondentes? (Tiago 2:14-17). Não entendo esse ensino como uma defesa de que boas obras comprem a salvação — Efésios 2:8-10 coloca a graça no centro —, mas como um chamado à coerência. As obras não são o preço da graça; são um de seus frutos esperados.
Existe uma diferença entre parecer religioso e ser transformado. A aparência pode ser construída para o público. A transformação precisa alcançar minha consciência. É por isso que o título deste artigo começa com duas palavras simples: eu creio. Elas me comprometem.
2. O que significa dizer “assim cremos”?
A tradição assembleiana reúne no “Cremos” 16 afirmações sobre a Bíblia, Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo, o ser humano, a salvação, a Igreja, as ordenanças, a vida santa, a experiência pentecostal, a esperança futura e a compreensão confessional do casamento. A edição de 2017 da Declaração de Fé desenvolve essas convicções em um conjunto de capítulos, com explicações e referências bíblicas. [1][2]
Não trato essa lista como uma escada pela qual alcanço superioridade sobre quem crê de outro modo. Recebo-a como um mapa das convicções da minha tradição e como convite à responsabilidade. Algumas afirmações são compartilhadas por grande parte do cristianismo histórico; outras expressam posições especificamente pentecostais ou interpretações nas quais há divergências entre cristãos.
As 16 declarações resumidas e o compromisso que reconheço nelas
| Artigo | O que confesso, em síntese | Texto bíblico de referência | O que isso exige de mim |
|---|---|---|---|
| 1 | A Bíblia é inspirada e norma de fé e prática | 2 Timóteo 3:14-17 | Ler, estudar e obedecer com responsabilidade |
| 2 | Há um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, Criador | Deuteronômio 6:4; Mateus 28:19 | Adorar com reverência e reconhecer minha condição de criatura |
| 3 | Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente homem, Salvador crucificado e ressuscitado | João 3:16; Romanos 1:3-4 | Colocar Cristo no centro da minha esperança |
| 4 | O Espírito Santo é divino, convence, regenera e guia | João 16:8-13; Tito 3:5 | Procurar direção, discernimento e transformação |
| 5 | O pecado rompe a comunhão com Deus; é necessário arrependimento e fé em Cristo | Romanos 3:23; Atos 3:19 | Reconhecer erros e abandonar justificativas fáceis |
| 6 | O novo nascimento ocorre pela graça, mediante a fé | João 3:3-8; Efésios 2:8-9 | Buscar renovação real, não apenas aparência |
| 7 | O perdão, a salvação e a justificação procedem da obra de Cristo | Romanos 3:24-26; 10:13 | Viver com gratidão e humildade |
| 8 | A Igreja é o corpo de Cristo e uma comunidade de adoração | 1 Coríntios 12:27; 1 Timóteo 3:15 | Participar, servir e cultivar a comunhão |
| 9 | O batismo em águas, por imersão, é ordenança cristã | Mateus 28:19; Romanos 6:3-6 | Testemunhar publicamente a fé com responsabilidade |
| 10 | A santificação integra a vida cristã | 1 Pedro 1:15-16; Hebreus 9:14 | Cultivar coerência nas decisões diárias |
| 11 | O batismo no Espírito Santo integra a experiência pentecostal, tendo o falar em línguas como evidência inicial na compreensão assembleiana | Atos 2:4; 10:44-46 | Buscar a Deus sem transformar experiências em competição |
| 12 | Os dons espirituais permanecem atuais e servem à edificação da Igreja | 1 Coríntios 12:4-12 | Usar capacidades para servir, com amor e ordem |
| 13 | Cristo voltará; a tradição assembleiana ensina uma compreensão pré-tribulacionista e pré-milenista | 1 Tessalonicenses 4:16-17; Apocalipse 20:4 | Viver em esperança, vigilância e responsabilidade |
| 14 | Os cristãos comparecerão perante o tribunal de Cristo | 2 Coríntios 5:10 | Considerar o valor e a responsabilidade de minhas ações |
| 15 | Haverá juízo final e consumação eterna | Mateus 25:46; Apocalipse 20:11-15; 21:1-4 | Levar a sério a justiça, a misericórdia e a eternidade |
| 16 | O casamento é compreendido confessionalmente como união entre homem e mulher | Gênesis 1:27; 2:24; Mateus 19:4-6 | Tratar a família com seriedade e todas as pessoas com dignidade |
Neste quadro, resumo os temas com minhas palavras. Para ler a declaração completa, consulto a obra das Assembleias de Deus. [1][2]
3. Eu creio na Bíblia — e isso me obriga a estudá-la
Se digo que a Bíblia é minha regra de fé e prática, preciso resistir a uma tentação comum: usá-la apenas para confirmar aquilo que já penso. Ler a Escritura com reverência não significa retirar frases de seu contexto para vencer uma discussão. É perguntar quem escreveu, para quem escreveu, em que situação, qual é o argumento do texto e como sua mensagem se relaciona com o conjunto das Escrituras.
Há um tipo de leitura que coleciona versículos como quem coleciona respostas prontas. Eu prefiro buscar uma leitura que também me permita ser corrigido. As palavras que considero divinamente inspiradas não podem servir somente para examinar os outros. Primeiro, precisam alcançar minhas próprias atitudes.
Quero que a leitura bíblica tenha lugar na minha rotina, e não apenas nos momentos de crise. Isso inclui estudar com constância, recorrer a traduções responsáveis, ouvir bons ensinadores e reconhecer que nem toda interpretação particular equivale automaticamente à vontade de Deus. A humildade intelectual não diminui a fé; ajuda a protegê-la contra a presunção (Atos 17:11; 2 Timóteo 2:15).
4. Eu creio em Deus — e reconheço que não sou o centro de tudo
Confesso, com a tradição cristã trinitária, um só Deus eternamente subsistente em Pai, Filho e Espírito Santo. Não vejo a doutrina da Trindade como um enigma para exibir erudição, mas como uma confissão sobre o Deus a quem adoro. A tradição assembleiana também afirma Deus como Criador e descreve de modo específico a criação dos seres humanos; nesse ponto, há diálogos e divergências com leituras científicas e outras interpretações cristãs. [2]
A consequência prática de crer em Deus como Criador é profunda: a vida não é uma propriedade absoluta da minha vontade. Meu tempo, meus talentos e os bens sob meus cuidados carregam responsabilidade. Fé em Deus não me autoriza a dominar pessoas; convida-me a responder pelo modo como trato a criação e o próximo.
Quando penso que tudo depende exclusivamente da minha força, a ansiedade cresce. Quando atribuo tudo a Deus para fugir de minhas responsabilidades, caio no outro extremo. Quero aprender a unir confiança e diligência: orar como quem depende de Deus e agir como quem foi chamado a ser responsável.
5. Eu creio em Jesus Cristo — e não apenas em ideias sobre ele
O centro da minha confissão é Jesus Cristo: seu nascimento, sua humanidade, sua divindade, sua morte em favor dos pecadores, sua ressurreição e sua exaltação. Não sigo somente um conjunto de máximas éticas. Minha fé está ligada à pessoa e à obra de Cristo (João 1:1-14; Filipenses 2:5-11; 1 Coríntios 15:3-4).
Isso tem consequências incômodas para o orgulho. Se a minha esperança depende da graça, não tenho motivo para tratar o próximo como se fosse espiritualmente superior. Se o Senhor a quem confesso se aproximou dos vulneráveis, não posso considerar fraqueza a compaixão. Se ele ensinou a verdade, não preciso confundir firmeza com grosseria.
Cristo não é apenas aquele por quem quero ser defendido; é também aquele por quem aceito ser confrontado. Quero aprender a pensar, falar e agir à luz de seu exemplo, especialmente quando seria mais fácil defender meus interesses do que fazer o que é correto.
6. Eu reconheço o pecado, o arrependimento e a necessidade de nascer de novo
A declaração assembleiana afirma a realidade do pecado e a necessidade de arrependimento, fé e novo nascimento. Para mim, isso começa com o reconhecimento de que o problema humano não está sempre “do lado de fora”. Também está nas escolhas que faço, nas justificativas que invento e nos relacionamentos que posso ferir.
Arrepender-me não é pronunciar uma palavra religiosa depois de ser descoberto. É reconhecer a falta, abandonar sua defesa e, quando possível, reparar o dano. O novo nascimento não se reduz a trocar de vocabulário ou frequentar um templo. A fé cristã o apresenta como obra da graça divina, pelo Espírito Santo, que produz uma vida reorientada a Deus (João 3:3-8; Tito 3:5).
Também não quero confundir maturidade com perfeição imediata. O crescimento espiritual envolve processo, correção e perseverança. Posso reconhecer minhas quedas sem normalizá-las; posso depender da misericórdia sem usá-la como licença para machucar os outros.
7. Eu creio na salvação pela graça — por isso não posso me gloriar
A salvação não é um prêmio concedido à pessoa que consegue construir a aparência religiosa mais convincente. Na confissão cristã que assumo, ela é dom de Deus, recebido mediante a fé em Jesus Cristo (Efésios 2:8-10). Não significa que a conduta deixou de importar. Significa que a obediência é resposta de gratidão, não moeda de compra do favor divino.
Essa verdade deveria produzir menos arrogância e mais hospitalidade. Nem todos se encontram na mesma etapa da caminhada. Há pessoas iniciando perguntas que outros discutem há décadas. Há gente cansada, ferida ou desconfiada de instituições religiosas. Posso apresentar minhas convicções com clareza, sem transformar diferenças em permissão para humilhar ninguém.
O que espero demonstrar é simples: quem experimenta o perdão precisa aprender também a perdoar; quem foi tratado com misericórdia não deveria ter prazer em negar humanidade ao outro.
8. Eu creio no Espírito Santo — e quero discernimento, não espetáculo
A identidade pentecostal das Assembleias de Deus dá especial destaque à atuação presente do Espírito Santo, ao batismo no Espírito Santo e à atualidade dos dons espirituais. Na leitura doutrinária assembleiana, o falar em outras línguas é a evidência física inicial do batismo no Espírito Santo, interpretação fundamentada especialmente no livro de Atos. Outros cristãos compreendem de modo diferente essa relação entre experiência espiritual e línguas; apresento aqui a posição confessional que orienta minha reflexão. [2][4]
Não quero que a linguagem sobre poder espiritual me faça esquecer a linguagem sobre fruto espiritual. Paulo fala de amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gálatas 5:22-23). Uma manifestação religiosa não dispensa caráter, prudência ou responsabilidade.
Da mesma maneira, reconheço os dons como instrumentos de serviço, não troféus de prestígio. Na vida comunitária, o dom que não edifica precisa ser examinado à luz do amor e da ordem (1 Coríntios 12–14). O que busco não é competir por sinais de espiritualidade, mas estar disponível para aquilo que produz bem à Igreja e ao próximo.
9. Eu creio na Igreja — e sei que ninguém amadurece sozinho
A Igreja é descrita no Novo Testamento como corpo de Cristo. Essa imagem confronta a ideia de uma espiritualidade puramente isolada: um corpo depende da diversidade de seus membros. Nem todos exercem a mesma função, e nenhuma função autoriza desprezar as demais (1 Coríntios 12:12-27).
A convivência comunitária tem beleza, mas também tem dificuldades. Igrejas são compostas de pessoas em crescimento, sujeitas a erros. Por isso, quero cultivar compromisso sem idolatrar líderes, lealdade sem perder o discernimento e respeito à autoridade sem confundir autoridade com ausência de prestação de contas.
O batismo em águas, realizado por imersão na tradição assembleiana, representa uma confissão pública de vínculo com Cristo. Não o considero um adorno de trajetória religiosa. Ele aponta para morte e ressurreição com Cristo e para uma vida assumidamente orientada por ele (Romanos 6:3-6).
10. Minha fé precisa aparecer no lugar mais difícil: a vida diária
Existe algo que me inquieta: alguém pode ser cordial no culto e impaciente em casa. Pode falar sobre justiça diante de uma congregação e desrespeitar compromissos financeiros. Pode defender a verdade com entusiasmo e compartilhar informações falsas sem verificar sua procedência.
A santificação, que confesso como obra do Espírito Santo na vida do crente, precisa alcançar o que faço quando volto da igreja. Quero ser a mesma pessoa na sala de aula, no comércio, nas relações de amizade, na família, na internet e no templo: alguém que procura agir com honestidade, prudência e respeito.
A santidade cristã não deve ser reduzida a sinais exteriores, embora escolhas concretas tenham importância. Ela envolve intenções, justiça, palavras, sexualidade, uso do dinheiro, cuidado com a família e responsabilidade com quem depende de mim. É possível conservar uma aparência de zelo e negligenciar aspectos centrais do caráter (Mateus 23:23; Romanos 12:1-2).
11. Minha família não precisa apenas ouvir sobre Deus; precisa perceber o que aprendo com ele
Falar de fé em família é mais do que organizar um momento devocional, ainda que isso possa ser valioso. É desenvolver uma forma de conviver. De que adianta ensinar sobre paciência sem escutar? De que adianta falar sobre respeito sem admitir um erro? Que peso terá um discurso sobre perdão se em casa as desculpas jamais são oferecidas?
O artigo 16 do “Cremos” expressa a compreensão assembleiana do casamento como união entre homem e mulher, uma posição confessional baseada em sua leitura das Escrituras. Reconheço que outras comunidades religiosas e pessoas na sociedade adotam entendimentos diferentes. Sustentar uma convicção religiosa não retira de ninguém a dignidade nem autoriza ofensa, discriminação ou violência.
Para mim, o desafio prático imediato é assumir as responsabilidades de cuidado, fidelidade, diálogo e presença. Não quero reivindicar o título de pessoa de fé enquanto abandono o dever de tratar bem aqueles que estão mais perto de mim. Efésios 5:21 chama os cristãos a uma postura de consideração mútua; Colossenses 3:12-14 destaca a compaixão, a mansidão, a paciência e o amor.
12. Não devo transformar a fé em argumento para fugir das perguntas
Uma declaração de fé é importante justamente porque torna públicas as convicções de uma comunidade. Isso permite ensiná-las, analisá-las, compará-las e compreender suas bases. Não vejo mérito em uma convicção incapaz de explicar por que existe.
Philip Schaff foi um historiador do cristianismo. Ao tratar da relação entre a Bíblia e as declarações de fé, ele distingue a fonte bíblica da maneira como uma comunidade organiza aquilo que crê. Ele observa que a fé cristã envolve vida, verdade e conhecimento, e que as formulações doutrinárias humanas não conseguem ocupar o lugar da própria Escritura. [3][5]
Quero conservar a liberdade de fazer perguntas honestas ao texto bíblico e aos meus próprios pressupostos. Quando alguém apresenta uma dúvida difícil, não preciso reagir como se toda pergunta fosse rebeldia. Minha responsabilidade é procurar uma resposta séria, reconhecer o que não sei e continuar aprendendo.
A firmeza de minhas convicções não exige infalibilidade pessoal. Posso afirmar a autoridade que atribuo à Bíblia e, ao mesmo tempo, reconhecer que minha compreensão de um assunto pode exigir correção e aprofundamento.
13. Eu creio na volta de Cristo — e não quero usar o futuro para negligenciar o presente
A esperança da segunda vinda de Cristo ocupa lugar importante na identidade pentecostal. O “Cremos” apresenta uma leitura escatológica específica: arrebatamento da Igreja antes da Grande Tribulação, retorno visível de Cristo e reino milenar. Há divergências entre escolas cristãs sobre a ordem dos acontecimentos e a interpretação de textos proféticos, mas essa é a posição assembleiana expressa no documento de referência. [2]
Não considero saudável transformar a esperança em obsessão por datas, boatos ou mapas sensacionalistas do fim do mundo. Jesus chama à vigilância e à fidelidade, não a uma competição por previsões (Mateus 24:36; Atos 1:7-8). Esperar por Cristo deve intensificar meu compromisso com o bem, não me afastar da responsabilidade pelo mundo em que vivo.
Os artigos sobre o tribunal de Cristo e o juízo final também me recordam a seriedade moral da existência. Não recebo esses ensinos como licença para declarar sentenças sobre indivíduos; eles me convidam primeiro a examinar a vida que estou construindo (2 Coríntios 5:10; Apocalipse 20:11-15).
14. Crer na cura divina não é desprezar o sofrimento de quem adoece
A Declaração de Fé mais ampla também desenvolve a doutrina da cura divina, expressão conhecida da espiritualidade pentecostal. Orar pelos enfermos é uma prática bíblica (Tiago 5:14-16). Ao mesmo tempo, não quero transformar a oração em instrumento de culpa contra quem continua sofrendo.
Uma pessoa que não experimenta a cura esperada não deve ser automaticamente acusada de falta de fé. Também não vejo oposição necessária entre oração, atendimento médico, tratamentos responsáveis e acolhimento emocional. A confiança em Deus não me desobriga de cuidar da vida humana com seriedade.
A compaixão é especialmente necessária quando não tenho respostas para todas as dores. Talvez o gesto mais cristão naquele momento não seja apresentar uma explicação pronta, mas permanecer ao lado de quem sofre.
15. Meu próximo passo começa pelo próximo que está diante de mim
Se afirmo que Deus me ama, preciso perguntar que lugar o amor ocupa nas relações concretas. A parábola do bom samaritano (Lucas 10:25-37) continua incômoda: a questão não é apenas definir teoricamente quem merece meu cuidado, mas perceber a pessoa ferida e agir com misericórdia.
Não preciso esperar ter recursos abundantes para começar. Posso oferecer tempo, escuta, atenção, ensino, alimento, uma visita ou uma orientação honesta. Há necessidades que pedem dinheiro; outras pedem presença. E algumas pedem algo ainda mais difícil: abandonar o orgulho e procurar reconciliação.
Quero que o amor ao próximo seja verificável também quando a pessoa não compartilha minha fé, minha denominação ou minhas opiniões. Minha convicção pode orientar minhas escolhas sem se converter em desprezo por quem pensa diferente. O testemunho cristão perde credibilidade quando a defesa da verdade se torna indiferença diante da dignidade humana.
16. O que muda nas minhas escolhas a partir de hoje?
Uma declaração de fé oferece conteúdo. A vida exige decisões. Para que o texto não termine apenas em emoção passageira, reuni perguntas que pretendo usar como exame pessoal. Elas não são uma nova regra denominacional, mas um exercício de coerência.
| Dimensão da vida | Pergunta que preciso responder | Uma atitude possível nesta semana |
|---|---|---|
| Palavra | Estou lendo a Bíblia para aprender ou apenas para defender opiniões? | Separar um momento de estudo contextualizado |
| Oração | Minha oração produz humildade e responsabilidade? | Reservar tempo para agradecer, pedir direção e ouvir |
| Família | Trato bem as pessoas com quem convivo? | Escutar sem interromper e reconhecer um erro |
| Trabalho | Sou íntegro quando isso me custa algo? | Rever um compromisso pendente e cumpri-lo |
| Comunidade | Participo ou apenas observo? | Oferecer ajuda em uma necessidade concreta |
| Perdão | Há um ressentimento que cultivo deliberadamente? | Considerar uma conversa respeitosa ou buscar apoio para lidar com a situação |
| Serviço | Quem precisa de cuidado ao meu alcance? | Praticar um gesto de generosidade sem publicidade |
| Esperança | Minha fé produz vigilância ou medo? | Trocar rumores por leitura responsável e confiança |
Esse quadro só terá significado se eu escolher ao menos uma ação e começar. O próximo passo de uma vida de fé não precisa ser espetacular. Ele precisa ser verdadeiro.
17. Uma caminhada de 30 dias: menos promessa e mais prática
Na primeira semana, quero dedicar atenção à Palavra e à oração. A proposta é escolher uma passagem curta, lê-la em contexto e anotar não apenas o que ela diz sobre os outros, mas o que questiona em mim.
Na segunda semana, o foco será a reconciliação e o cuidado com quem convive comigo. Não posso controlar todas as reações, mas posso rever minhas palavras, reconhecer responsabilidades e evitar atitudes agressivas.
Na terceira semana, quero transformar fé em serviço concreto. Isso pode significar participar de uma ação solidária, apoiar uma família, oferecer orientação a quem precisa ou colaborar de maneira discreta com a comunidade.
Na quarta semana, pretendo revisar minha conduta e meus compromissos. O objetivo não é preencher uma planilha de virtudes nem contar boas ações para merecer aceitação divina. É perguntar, com serenidade: onde houve crescimento, onde persistem incoerências e que mudança merece continuidade?
Um período de 30 dias não resolve todos os conflitos da alma, mas pode quebrar a inércia. E uma rotina simples, repetida com sinceridade, costuma ensinar mais sobre perseverança do que resoluções grandiosas que nunca saem do papel.
18. Quando falho, qual deve ser meu próximo passo?
Preciso admitir que escrever essas palavras não me coloca acima delas. A reflexão é, antes de tudo, dirigida a mim mesmo. Posso tropeçar, reagir mal, demorar a pedir perdão ou descobrir incoerências entre discurso e prática. A questão decisiva não é construir a ficção de alguém que jamais falha, mas decidir o que faço quando a falha se torna evidente.
Na tradição cristã, confissão e arrependimento não são uma encenação de culpa sem mudança; apontam para reconciliação com Deus e responsabilidade com as pessoas (1 João 1:8-9). Se causei dano, devo considerar como reparar. Se errei publicamente, talvez seja necessário corrigir publicamente. Se uma situação exige ajuda profissional, pastoral ou comunitária, pedir apoio pode ser sinal de responsabilidade, não de fraqueza.
A fé não se mede apenas pelo que proclamo quando estou forte, mas também pela verdade com que reconheço minha fragilidade.
19. Perguntas que eu mesmo preciso continuar fazendo
Preciso compreender todas as doutrinas antes de dar um passo de fé? — Não é necessário dominar toda a teologia para começar a aprender, mas considero importante cultivar estudo, discernimento e disposição para amadurecer.
Uma declaração de fé substitui a Bíblia? — Não. Para minha tradição, a declaração sintetiza interpretações doutrinárias; as Escrituras permanecem a fonte de autoridade da fé cristã.
Posso respeitar pessoas que discordam de mim e continuar fiel às minhas convicções? — Sim. Respeito à dignidade não exige ocultar minhas crenças, assim como a defesa de uma crença não autoriza hostilidade.
Ter dons espirituais significa ter mais valor do que outras pessoas? — Não. Em 1 Coríntios 12–13, diversidade de dons e primazia do amor precisam caminhar juntas.
Como saber qual é meu próximo passo? — Começo identificando uma área concreta em que compreendo o ensino bíblico, mas ainda não o transformei em prática. Depois, escolho uma ação viável, responsável e verificável.
20. Conclusão — eu creio, por isso não quero continuar exatamente igual
Ao reler os 16 artigos de fé das Assembleias de Deus, percebo que nenhum deles deveria existir apenas para ser marcado como uma resposta correta. A Escritura me chama à atenção. A fé em Deus me convida à reverência. A obra de Cristo me ensina a depender da graça. O Espírito Santo me chama à transformação. A Igreja me recorda que pertenço a uma comunidade. A santificação alcança minhas escolhas. A esperança futura dá seriedade ao presente.
E ainda assim existe uma pergunta que só eu posso responder diante de Deus: o que farei com tudo isso?
Não quero usar a doutrina como vitrine, nem transformar a fé em bandeira para esconder contradições. Quero que aquilo que creio encontre espaço na minha forma de amar, trabalhar, ensinar, servir, ouvir, corrigir erros e conviver com quem não pensa como eu.
O meu próximo passo talvez seja buscar reconciliação. Talvez seja abrir a Bíblia com mais humildade. Talvez seja abandonar um hábito, assumir uma responsabilidade, servir sem esperar reconhecimento ou simplesmente ouvir alguém com atenção. O importante é que a decisão saia do campo das intenções.
“Eu creio” é a declaração da minha consciência. “Assim vivo” é a prova cotidiana que preciso buscar. “Meu próximo passo” é a responsabilidade que não quero adiar.
— AlexCSilva
Se daqui a algum tempo alguém me perguntar em que creio, espero conseguir responder com palavras claras. Mas desejo, sobretudo, que minhas atitudes tornem essa resposta mais compreensível. Porque uma fé que confesso com os lábios precisa também alcançar minhas mãos, meus passos e o modo como trato o próximo.
Referências e fontes para estudo
[1] CGADB — Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Declaração de Fé. Página oficial que apresenta o documento confessional e o acesso ao livro. Disponível em: https://cgadb.org.br/declaracao-de-fe/ . Acesso em: 12 out. 2026.
[2] CGADB; CPAD. Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Organização de Esequias Soares da Silva. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. Documento homologado na 43ª Assembleia Geral Ordinária da CGADB, em abril de 2017. Referência editorial: https://www.cpad.com.br/e-book-declaracao-de-fe-334995/p .
[3] SCHAFF, Philip. The Creeds of Christendom: With a History and Critical Notes. v. II, “Scripture Confessions”. Trecho sobre a relação entre Bíblia e credo. Christian Classics Ethereal Library, uma biblioteca digital de obras cristãs. Disponível em: https://ccel.org/ccel/schaff/creeds2/creeds2.ii.html .
[4] BÍBLIA SAGRADA. Atos dos Apóstolos 1–2; 10; 19; 1 Coríntios 12–14; Gálatas 5:22-23. Referências bíblicas pertinentes ao estudo sobre o Espírito Santo e os dons espirituais. As explicações do artigo refletem a perspectiva assembleiana quando assim identificado.
[5] SCHAFF, Philip. History of the Christian Church. v. I, § 67, “Unity of Apostolic Teaching”. Christian Classics Ethereal Library, uma biblioteca digital de obras cristãs. Disponível em: https://ccel.org/ccel/schaff/hcc1/hcc1.i.XI.67.html .
[6] BÍBLIA SAGRADA. 2 Timóteo 3:14-17; João 1:1-14; João 3:3-8; Romanos 3:23-26; Efésios 2:8-10; Tiago 2:14-17; 1 Pedro 3:15. Passagens fundamentais para a reflexão sobre Escritura, cristologia, salvação e vida prática.
[7] BÍBLIA SAGRADA. Mateus 28:19; Romanos 6:3-6; 1 Coríntios 12:12-27; 2 Coríntios 5:10; 1 Tessalonicenses 4:16-17; Apocalipse 20:11–21:4. Textos relacionados à Igreja, ao batismo e à volta de Cristo, ao juízo e à vida eterna.
[8] BÍBLIA SAGRADA. Lucas 10:25-37; Mateus 23:23; Romanos 12:1-2; Colossenses 3:12-14; 1 João 1:8-9. Textos de apoio à ética, misericórdia, santificação e responsabilidade pessoal.
Continuo minha leitura na Bíblia do site · Estudo os 16 artigos da minha fé

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