Antes de votar, olhe para a criança que está aprendendo com você

Ilustração de uma criança observando a convivência familiar e o exemplo dos adultos

A eleição passa, mas o exemplo pode permanecer. Compartilho minha reflexão sobre voto consciente, responsabilidade pública, respeito à família e o que as crianças aprendem com nossas atitudes.

Existe uma cena que não me sai da cabeça: uma família sentada à mesa, a televisão ligada, os celulares vibrando, duas pessoas tentando provar que têm razão e, entre elas, uma criança em silêncio. Ninguém lhe perguntou nada. Talvez nem percebam que ela está ouvindo. Mas está. E aquela criança, que ainda não vota, está recebendo uma aula sobre política, convivência e humanidade.

Não é uma aula com quadro, livro ou prova. É uma aula dada pelo tom de voz, pela palavra que humilha, pela notícia repassada sem conferência, pelo modo como tratamos quem discorda. Penso nisso especialmente porque, como professor e cidadão, sei que as crianças aprendem também com aquilo que testemunham nos adultos, e nem toda lição vem de uma escola.

Imagino as perguntas que uma criança poderia fazer: por que falta atendimento a quem está doente? Por que ainda existe gente com fome? Por que há obras anunciadas que não ficam prontas? Por que os adultos brigam por políticos e se afastam de pessoas que amam? São perguntas que me fazem olhar para as consequências das nossas escolhas.

Foi daí que surgiu a pergunta que orienta este artigo: antes de decidir quem desejo que governe, que pessoa estou me tornando no caminho até a urna?

Não é apenas o futuro político do país que está em disputa. Também está em formação o exemplo moral que os adultos oferecem às crianças enquanto discutem esse futuro.

— Minha reflexão

1. Não é sobre escolher um lado antes de escutar

Se eu digo que é errado desviar recursos públicos, algumas pessoas imediatamente tentam descobrir a quem estou me referindo. Se afirmo que uma escola deve oferecer aprendizagem de verdade, alguém procura uma bandeira partidária escondida na frase. Se defendo que quem espera por atendimento de saúde merece dignidade, surgem rótulos antes de perguntas.

Eu compreendo que as pessoas tenham princípios, posições e prioridades diferentes. É legítimo pensar de maneira distinta sobre economia, políticas sociais, impostos, segurança, educação, organização do Estado e tantos outros assuntos. O pluralismo político, inclusive, é um dos fundamentos da República, conforme o artigo 1º da Constituição de 1988 [1].

O que me preocupa é quando a identidade partidária passa a funcionar como filtro para decidir se um sofrimento merece ser reconhecido. Uma criança com fome não pertence a um partido; uma mãe preocupada com o filho doente não precisa apresentar uma posição ideológica para merecer respeito.

Isso não torna todos os programas de governo iguais, nem dispensa a comparação de propostas. Existem diferenças políticas concretas e consequências reais. A humanidade de quem será afetado, porém, não pode depender do lado que venceu.

Mãe e filha caminhando para a escola, representando aprendizado pelo exemplo
A cidadania também se aprende na maneira como adultos se dirigem às crianças e às outras pessoas.

2. Uma criança vê o que os adultos preferem não enxergar

Nós costumamos explicar às crianças que elas precisam respeitar as pessoas, evitar ofensas, falar a verdade, ouvir antes de responder e admitir quando estão erradas. Depois chega uma eleição, e alguns adultos suspendem justamente essas regras.

A criança vê o insulto no grupo da família. Ouve alguém comemorar uma humilhação pública. Percebe quando uma notícia falsa continua sendo compartilhada porque favorece um candidato. Aprende, sem que ninguém lhe diga expressamente, que há situações em que mentir, gritar ou desprezar seriam aceitáveis — desde que seja em defesa do “nosso lado”.

O UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância, orienta pais e responsáveis a serem exemplos de respeito, inclusive no comportamento on-line, porque as crianças observam como os adultos tratam os outros [2]. E a educação para a cidadania, na perspectiva da UNESCO, organização das Nações Unidas dedicada à educação, à ciência e à cultura, inclui desenvolver pensamento crítico, empatia, colaboração e capacidade de participar eticamente da vida coletiva [3].

Não quero passar aos mais jovens a ideia de que conversar é um sinal de fraqueza ou que discordar é motivo suficiente para romper um vínculo. Quero ensinar-lhes a defender valores sem transformar pessoas em inimigas.

Se ensino respeito com a voz e desprezo com as atitudes, qual das duas lições a criança levará para a vida?

— Minha reflexão

3. O problema não é ter convicção; é perder o critério

Não escrevo para dizer que todas as opiniões são equivalentes ou que devemos ficar indiferentes a decisões públicas. Eu posso ter convicções profundas, apoiar determinada proposta e rejeitar outra. Posso criticar um governante e reconhecer acertos de alguém com quem discordo. Posso celebrar políticas que considero bem-sucedidas e cobrar explicações quando os resultados ficam aquém do prometido.

O que não posso fazer, se desejo ser intelectualmente coerente, é condenar um comportamento quando praticado por um adversário e justificá-lo automaticamente quando aparece do meu lado.

É fácil exigir honestidade de quem não recebeu meu voto. O teste difícil é exigir honestidade de quem eu ajudei a eleger. É fácil compartilhar o erro de um opositor. O teste é corrigir uma informação falsa que beneficia a pessoa que apoio.

Talvez devêssemos fazer menos perguntas sobre a cor de uma bandeira e mais perguntas sobre critérios: que prova sustenta esta acusação? Qual foi o resultado da política? Quanto custou? Quem fiscalizou? Quem foi atendido? O que ainda falta fazer?

Isso é consciência crítica. Não significa abrir mão da posição política; significa submetê-la a princípios que não mudam conforme a conveniência.

4. O dinheiro público não é propriedade de quem governa

Posso resumir essa responsabilidade em palavras simples: “Se não é seu, você não pega. Se prometeu, cumpre. Se colocaram você para cuidar do dinheiro de todo mundo, você cuida”.

Na administração pública, as responsabilidades são mais complexas do que essas frases, mas a intuição ética tem fundamento: recursos públicos precisam obedecer a leis, finalidades e mecanismos de prestação de contas. O artigo 37 da Constituição estabelece princípios como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência [1]. A Controladoria-Geral da União apresenta a transparência e a prestação de contas como instrumentos de controle institucional e social [4].

Eu não quero avaliar uma gestão apenas pela inauguração fotografada, pelo anúncio bem editado ou pela quantidade de discursos. Quero saber se o recurso foi aplicado corretamente, se a entrega aconteceu, se o serviço funciona e se a população está melhor atendida.

Uma escola precisa oferecer condições de aprendizagem. Uma unidade de saúde precisa oferecer atendimento conforme suas responsabilidades. Uma obra pública não termina quando a placa é instalada. A propaganda é comunicação; o resultado precisa ser verificável.

Isso vale para municípios, estados e União, respeitando as competências de cada ente. E vale independentemente do partido que governa.

5. A diferença entre perguntar pelo resultado e procurar um culpado conveniente

Quando um problema aparece, posso reagir de duas maneiras. A primeira é procurar imediatamente alguém para atacar. A segunda é descobrir quais são os fatos, responsabilidades e alternativas de solução.

A primeira rende comentários rápidos, aplausos entre os semelhantes e, muitas vezes, mais ressentimento. A segunda exige paciência, conhecimento e disposição para reconhecer a complexidade de cada questão.

Se uma escola enfrenta dificuldades, preciso considerar infraestrutura, material didático, formação docente, gestão, frequência, contexto familiar e políticas educacionais. Se há demora no atendimento de saúde, devo distinguir os níveis de assistência, os recursos existentes, a organização da rede e as responsabilidades de cada esfera de governo. Se uma obra está atrasada, preciso examinar contrato, cronograma, execução, aditivos, medições e fiscalização.

Nada disso impede a denúncia de irregularidades. Ao contrário: uma cobrança bem fundamentada é mais forte do que uma acusação genérica. Quem exige responsabilidade pública deve começar respeitando os fatos.

6. Quando a política invade a mesa de jantar

Não tenho a pretensão de dizer que famílias devam evitar qualquer assunto político. A política participa do preço dos alimentos, da organização da educação, das prioridades sanitárias e das regras de convivência. Fingir que ela não existe não seria a solução.

O problema é quando a discussão deixa de tratar de ideias e passa a atacar a dignidade de alguém que está sentado à nossa frente.

A Associação Americana de Psicologia, conhecida pela sigla APA, oferece orientações para conversas sobre diferenças políticas: ouvir de verdade, fazer perguntas, procurar pontos de contato e aceitar que nem toda conversa terminará em mudança de opinião [5]. Uma pesquisa norte-americana publicada pela associação em 2024 registrou tensões familiares em torno de debates políticos; esses números dizem respeito aos Estados Unidos e não devem ser usados como retrato estatístico do Brasil [6].

O conselho prático, porém, é útil: posso interromper uma conversa que está se tornando agressiva. Posso dizer “não concordo, mas quero entender seu argumento”. Posso admitir “nessa informação eu estava errado”. Posso estabelecer limites quando há insultos ou ameaças.

Respeito não exige tolerar humilhações, discriminação ou violência. Também não significa esconder injustiças. Significa reconhecer que discordar de alguém não nos dá licença para degradá-lo.

7. Uma pessoa vale mais do que o voto que deposita na urna

É possível que o parente com quem discordo tenha cuidado de mim em um momento de doença. O amigo que vota em outra direção talvez tenha me estendido a mão quando precisei de apoio. A pessoa que pensa diferente sobre economia, costumes ou políticas públicas pode ter uma história de generosidade que eu desconheço.

Essa consciência não apaga divergências. Mas ajuda a impedir que uma escolha eleitoral seja confundida com a totalidade de uma vida humana.

Quando transformamos o voto no único critério para julgar o caráter de alguém, passamos a enxergar pessoas como caricaturas. Reduzimos irmãos, vizinhos, colegas e amigos a uma categoria política. E perdemos a possibilidade de aprender até mesmo com quem não partilha de nossas opiniões.

Preciso lembrar que candidatos se submetem ao julgamento público e devem receber críticas proporcionais às suas funções; cidadãos comuns, por sua vez, não deixam de ter dignidade pelo voto que exercem.

8. Discordar, cobrar e agredir não são a mesma coisa

Atitude Cidadania responsável Polarização destrutiva
Ao encontrar uma informação Verifico fonte, data e contexto Repasso imediatamente se favorece meu lado
Ao ouvir outra opinião Pergunto, argumento e escuto Ridicularizo ou desqualifico a pessoa
Ao avaliar um governante Aplico critérios consistentes Relevo todo erro de quem apoio
Diante de uma denúncia Busco documentos e apuração Concluo antes das evidências
Na conversa com a família Preservo dignidade e limites Transformo a mesa em tribunal
Após a eleição Continuo fiscalizando Trato a vitória como cheque em branco

Essa tabela não é um convite ao silêncio. É uma lembrança de que há uma diferença entre a firmeza de uma convicção e a agressividade com que alguém tenta impô-la.

Não quero trocar a consciência pelo conforto de pertencer a um grupo que sempre concorda comigo.

— Minha reflexão

9. A mentira que parece boa porque favorece meu candidato

Um dos testes mais difíceis da honestidade intelectual acontece quando recebemos uma publicação que confirma exatamente o que já acreditamos. Ela vem acompanhada de uma manchete chamativa, um vídeo recortado ou uma mensagem que termina com “compartilhe antes que apaguem”.

Nesse momento, a sensação de ter razão pode ser maior que a vontade de conferir os fatos.

O TSE recomenda consultar fontes confiáveis, verificar a origem dos conteúdos, ler além do título e conferir informações em serviços de checagem como o Fato ou Boato, atualizado para as eleições de 2026 [7]. A UNESCO define a alfabetização midiática e informacional como um conjunto de capacidades para analisar e avaliar criticamente conteúdos e tomar decisões informadas [8].

Eu acrescentaria uma disciplina pessoal: quanto mais uma publicação me provoca raiva ou euforia, maior deve ser meu cuidado antes de repassá-la. Emoção forte não é prova de verdade.

E se eu tiver compartilhado algo incorreto? Corrigir publicamente não deveria ser motivo de vergonha. Vergonha maior seria deixar a mentira circular apenas para não contrariar meus aliados.

10. O voto consciente começa bem antes da cabine

Neste artigo, quero refletir sobre os critérios que uso para votar e sobre como trato quem pensa diferente. Meu objetivo é apresentar perguntas que qualquer eleitor possa utilizar, independentemente de sua preferência política.

Antes da votação, é possível examinar as propostas oficiais, a trajetória pública, as prioridades, a compatibilidade entre promessas e atribuições do cargo, os meios de financiamento e os dados disponibilizados pela Justiça Eleitoral. O sistema DivulgaCandContas, do TSE, disponibiliza informações sobre candidaturas, bens declarados e contas de campanha [9]. O TSE também disponibilizou páginas com propostas presidenciais de 2026, inclusive do segundo turno, extraídas dos documentos apresentados pelas candidaturas [10].

Não é necessário concordar com todas as propostas para analisá-las seriamente. É necessário saber o que está sendo prometido, quais instrumentos são necessários e quais efeitos são plausíveis.

Pergunta ao avaliar propostas Por que ela importa?
O problema foi definido com clareza? Sem diagnóstico, é difícil avaliar a solução
Qual é a atribuição legal do cargo? Nem toda promessa depende apenas de quem a faz
Há estimativa de custo e fonte de recursos? Recursos públicos exigem planejamento
Há prazo, metas e indicadores? Permite acompanhar cumprimento e resultados
Existem documentos e dados verificáveis? Ajuda a separar registro de propaganda
O compromisso respeita direitos e instituições? Resultados não dispensam legalidade
O mesmo critério vale para meus favoritos? Protege a coerência de minha avaliação

Essas perguntas não produzem uma resposta eleitoral automática. Elas apenas ajudam a tornar a escolha mais informada e independente.

11. Promessas, responsabilidades e resultados: três coisas distintas

A vida pública é cheia de frases sobre o futuro. “Vamos construir”, “vamos melhorar”, “vamos resolver”. Algumas propostas são viáveis; outras dependem de orçamento, legislação, articulação institucional ou fatores fora do controle direto do candidato.

Por isso, separo três momentos. Promessa é o compromisso anunciado. Execução é o conjunto de medidas tomadas para realizá-lo. Resultado é a mudança efetivamente alcançada, que precisa ser avaliada com dados e contexto.

Também procuro distinguir uma dificuldade legítima, uma mudança justificada de prioridades e uma eventual irregularidade. Nem todo atraso configura corrupção. Nem toda despesa elevada é desperdício. Nem toda obra inaugurada está funcionando adequadamente. Para julgar com responsabilidade, preciso de documentos, não apenas suspeitas.

É a mesma coerência que desejo ver no cidadão e no governante: prestar contas, reconhecer limites e não esconder informações incômodas.

12. Não basta votar e desaparecer da vida pública

Quando o resultado é anunciado, muita gente age como se sua responsabilidade tivesse terminado. Não terminou.

A Constituição declara, no parágrafo único do artigo 1º, que o poder emana do povo [1]. Isso não significa interferir arbitrariamente em instituições ou substituir processos legais. Significa que a participação democrática não se resume a comparecer às urnas.

Posso acompanhar os portais de transparência, examinar informações públicas, participar de reuniões e conselhos quando cabível, apresentar pedidos de informação pelos canais legais e cobrar respostas de representantes eleitos. A CGU descreve a transparência como instrumento para a sociedade fiscalizar a aplicação dos recursos públicos [11].

É contraditório exigir que políticos cumpram seus deveres e, ao mesmo tempo, considerar a cidadania uma atividade exclusiva dos dias de eleição.

13. A escola ensina cidadania, mas a família também ensina pelo exemplo

Como educador, reconheço a importância de ensinar conteúdos, desenvolver raciocínio e ajudar estudantes a construir autonomia intelectual. Não penso que uma escola deva transformar crianças em seguidores de partidos ou reproduzir preferências particulares de adultos.

A educação para a cidadania envolve compreender direitos, instituições, deveres, diversidade de opiniões e maneiras legítimas de participação. A UNESCO enfatiza pensamento crítico, empatia e colaboração como competências relevantes à vida democrática [3].

Mas existe uma parte da formação que não pode ser terceirizada. É difícil ensinar a uma criança que ela deve respeitar divergências se, em casa, ela assiste ao desprezo sistemático por quem pensa diferente. Da mesma forma, não basta ensinar honestidade em palavras e justificar mentiras convenientes em nome de uma disputa eleitoral.

Família e escola têm responsabilidades próprias e complementares. Nenhuma delas precisa substituir a outra; ambas podem contribuir para a formação de pessoas capazes de pensar, dialogar e responder por suas atitudes.

Vizinhos com opiniões distintas em conversa respeitosa ao redor de uma mesa
Debater com firmeza e preservar a dignidade do outro podem ser atitudes complementares.

14. E se a criança me perguntasse por que estamos brigando?

É uma pergunta simples, mas difícil de responder sem constrangimento: “Por que vocês estão falando assim um com o outro?”

Penso que eu deveria ser capaz de explicar minhas divergências sem ensinar hostilidade. Poderia dizer que os adultos discordam sobre quais medidas melhoram o país, que decisões públicas produzem consequências e que é legítimo defender posições diferentes. Também precisaria admitir que, às vezes, adultos erram no modo como falam.

Se tivesse gritado, o exemplo mais valioso talvez fosse pedir desculpas. Se tivesse repassado uma informação falsa, seria corrigir. Se tivesse ofendido alguém, seria procurar reparar o dano.

A criança não precisa conhecer os detalhes de uma disputa partidária para aprender uma lição importante: convicção e respeito podem caminhar juntos.

15. Cinco compromissos que posso assumir hoje

Não quero encerrar esta reflexão apenas lamentando a situação do país. Há atitudes concretas que posso praticar, sem esperar outra eleição:

  1. Investigar antes de acusar. A dúvida honesta é preferível à certeza fabricada.
  2. Cobrar com o mesmo rigor. Quem recebe meu voto não recebe imunidade moral.
  3. Preservar o diálogo. Posso discordar de ideias e políticas sem desumanizar seus defensores.
  4. Dar exemplo às crianças. Meu comportamento on-line e presencial faz parte da educação que transmito.
  5. Acompanhar depois da eleição. Promessas, orçamento, entregas e resultados exigem fiscalização contínua.

Esses compromissos não garantem que cada decisão pública será boa. Mas ajudam a preservar algo indispensável: o espaço em que uma sociedade pode discutir seus problemas sem precisar destruir a si mesma.

16. O futuro não está apenas nas mãos de quem vencer

Quando imagino o Brasil que desejo, penso em coisas muito concretas. Penso em uma criança aprendendo de verdade, e não apenas avançando de série. Em uma pessoa doente encontrando atendimento digno. Em uma rua que permita voltar para casa em segurança. Em uma família que consiga planejar suas despesas. Em uma administração pública que apresente resultados e aceite fiscalização.

São objetivos que podem receber diferentes propostas de solução. A divergência sobre os caminhos não deveria impedir que reconheçamos a importância das pessoas afetadas.

Também imagino uma mesa em que familiares possam conversar sem transformar o voto em prova absoluta de caráter. Uma comunidade em que se saiba perder sem desejar a destruição do outro, ganhar sem humilhar e continuar exigindo responsabilidade de quem governa.

Enquanto discutimos o futuro, as crianças observam o presente que oferecemos a elas. Quero que encontrem em mim um exemplo de responsabilidade e respeito.

17. Conclusão: em quem vou votar importa; quem estou ensinando a ser também

Não quero abandonar a política, porque ela faz parte da vida coletiva e de decisões que influenciam direitos, serviços e oportunidades. Também não quero transformá-la em uma religião secular em que toda crítica ao meu lado seja heresia e toda virtude esteja reservada aos meus aliados.

Quero conservar a capacidade de reconhecer erros, examinar propostas e defender princípios com firmeza. Quero lembrar que a responsabilidade pública não pertence a um partido, que a dignidade humana não termina na fronteira das preferências eleitorais e que o resultado de uma urna não autoriza humilhar pessoas.

Penso novamente naquela criança sentada à mesa. Talvez ela nem se lembre dos nomes que estão nos cartazes de hoje. É possível que esqueça slogans e jingles. Mas há uma chance de que se lembre do modo como seu pai, sua mãe, seu professor ou alguém próximo tratou outra pessoa durante uma discussão difícil.

A pergunta final não é uma tentativa de dizer em quem alguém deve votar. É uma pergunta que faço também a mim mesmo:

Enquanto escolho quem desejo que governe o país, que adulto uma criança está aprendendo a ser ao observar minha maneira de agir?

Porque uma eleição passa. O exemplo pode permanecer.


Referências e fontes consultadas

[1] BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Arts. 1º, 3º, 14 e 37. Portal da Legislação. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

[2] UNICEF. Bullying: What is it and how to stop it. UNICEF Parenting. Orientações sobre o exemplo dos adultos e o respeito às pessoas, inclusive em ambientes digitais. https://www.unicef.org/parenting/child-care/bullying

[3] UNESCO. Education for just and democratic societies. Educação cidadã, pensamento crítico, empatia e colaboração. https://www.unesco.org/en/education-just-democratic-societies

[4] CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO (CGU). Transparência e Prestação de Contas. Portal gov.br. https://www.gov.br/cgu/pt-br/acesso-a-informacao/transparencia-e-prestacao-de-contas/transparencia-e-prestacao-de-contas

[5] AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION (APA). Managing conversations when you disagree politically. Revisado em 21 out. 2024. https://www.apa.org/topics/stress/conversations

[6] AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION (APA). After a divisive election, most U.S. adults ready to avoid politics this holiday. Comunicado de 10 dez. 2024. Dados relativos aos Estados Unidos. https://www.apa.org/news/press/releases/2024/12/avoid-politics-holiday

[7] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Fato ou Boato: saiba o que é verdade e o que é mentira sobre o processo eleitoral. 7 out. 2026. https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/fato-ou-boato-veja-como-verificar-noticias-sobre-a-justica-eleitoral

[8] UNESCO. Media and Information Literacy (MIL). Educação midiática, avaliação de fontes e enfrentamento da desinformação. https://www.unesco.org/en/ami

[9] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais — DivulgaCandContas. https://www.tse.jus.br/administracao/painel/divulgacao-de-candidaturas-e-contas-eleitorais

[10] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Planos de governo dos candidatos ao cargo de Presidente da República — Eleições 2026 (2º turno). https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/propostas-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026-segundo-turno

[11] CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO (CGU). Transparência Pública e Dados Abertos. https://www.gov.br/cgu/pt-br/assuntos/transparencia-publica/transparencia-publica

[12] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Eleições 2026: confira as principais datas do calendário eleitoral. Atualizado em julho de 2026. https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Marco/eleicoes-2026-confira-as-principais-datas-do-calendario-eleitoral

Documentos para consultar antes de votar

Disponibilizo os planos do PT e do PL e meu roteiro para comparar propostas. Minha preferência política não muda os critérios de honestidade e respeito que defendo aqui.

Ilustração comparativa das candidaturas de Lula, PT, e Flávio Bolsonaro, PL, no segundo turno de 2026
Ilustração das candidaturas presidenciais. Confiro as informações no TSE.
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