Lula venceu, Flávio perdeu e o Brasil continua dividido: agora quem resolve os problemas?

Urna eletrônica representando a votação presidencial brasileira de 2026

Lula foi reeleito presidente com 51,79% dos votos válidos, derrotando Flávio Bolsonaro. Mas o resultado das urnas não resolve a inflação, os desafios da educação, os juros ou a divisão política. Uma análise crítica sobre a vitória, a oposição e as responsabilidades que começam agora.

O Brasil foi às urnas, escolheu seu presidente e, como acontece depois de praticamente toda eleição, uma parte da população comemorou como se tivesse ganhado na loteria, enquanto outra reagiu como se o país tivesse acabado naquela mesma noite.

Mas tenho uma notícia para os dois lados: a eleição terminou, o resultado foi definido e os problemas continuam trabalhando normalmente.

O supermercado não suspendeu os preços para comemorar a democracia. Os juros não pediram licença para respeitar o resultado das urnas. As dificuldades da educação não desapareceram, e as famílias que enfrentam problemas para pagar suas contas continuam precisando de respostas.

No dia 25 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), foi reeleito presidente da República, derrotando Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL).

Agora, a pergunta que considero verdadeiramente importante não é apenas quem ganhou ou perdeu.

É o que o Brasil ganhará — ou perderá — com as decisões tomadas daqui para a frente.

1. O resultado das urnas: os números não precisam de torcida

Antes de qualquer opinião, considero indispensável apresentar os fatos.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o resultado do segundo turno foi o seguinte:

CandidatoPartidoVotosVotos válidos
LulaPT64.256.23251,79%
Flávio BolsonaroPL59.826.04148,21%

Lula venceu por uma diferença de 4.430.191 votos.

Isso significa que milhões de brasileiros fizeram escolhas diferentes e que, apesar da vitória presidencial, existe uma parcela expressiva do eleitorado que preferiu o candidato derrotado.

Um detalhe torna essa eleição especialmente interessante: no primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia terminado à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%.

No segundo turno, a ordem se inverteu.

O resultado demonstra que uma eleição só termina quando a votação termina. Pesquisa não é urna, vantagem inicial não é vitória definitiva e entusiasmo de militante não substitui contagem de votos.

A matemática eleitoral tem essa característica inconveniente para quem não gosta do resultado: ela não muda porque alguém resolveu ficar indignado.

2. A maioria venceu. Mas a outra parte do país não desapareceu

Aqui está um dos pontos que mais me preocupam na política brasileira: a dificuldade que algumas pessoas demonstram em aceitar que discordância não significa inimizade.

Lula venceu legitimamente a disputa eleitoral. Isso precisa ser reconhecido.

Flávio Bolsonaro perdeu a eleição presidencial, mas os milhões de brasileiros que votaram nele continuam tendo direitos, necessidades, opiniões e expectativas.

E o mesmo princípio valeria se o resultado tivesse sido o contrário.

O governo eleito tem a responsabilidade de governar para toda a população, inclusive para quem não o apoiou.

Por sua vez, a oposição tem a responsabilidade de fiscalizar, questionar, propor alternativas e representar seus eleitores dentro das regras democráticas.

O problema começa quando governar se transforma em uma disputa permanente de popularidade e fazer oposição passa a significar torcer para que tudo dê errado.

Não considero isso patriotismo. Considero uma maneira bastante improdutiva de fazer política.

Afinal, quando um serviço público fracassa, o prejuízo não escolhe a preferência partidária de quem será atendido.

3. E os brasileiros que não votaram?

O segundo turno também apresenta outro número que merece atenção.

De acordo com os resultados divulgados pela Justiça Eleitoral, cerca de 30,5 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, uma taxa de abstenção de aproximadamente 19,22%.

É um contingente gigantesco.

Mas precisamos ter cuidado com as interpretações.

Não é correto afirmar que todos esses brasileiros estavam revoltados com os candidatos. A ausência pode resultar de dificuldades de deslocamento, problemas pessoais, impedimentos diversos ou decisão de não comparecer.

Sem uma pesquisa específica, atribuir um único motivo a milhões de pessoas seria substituir investigação por adivinhação.

O fato é que a participação eleitoral merece atenção.

A democracia depende da possibilidade de votar, mas também do acesso à informação, da capacidade de avaliar propostas e da liberdade para discordar.

E faço uma observação: votar é importante, mas acompanhar o que acontece depois do voto é igualmente necessário.

Não faz sentido passar meses defendendo um candidato e depois quatro anos sem cobrar absolutamente nada dele.

4. A economia: porque a conta chega independentemente de quem venceu

Se existe um assunto que consegue reunir brasileiros de diferentes posições políticas, esse assunto é o custo de vida.

O cidadão pode ter opinião sobre tudo, mas precisa pagar água, energia, alimentação, transporte e outras despesas.

Segundo o IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,82% em setembro de 2026, acumulando 4,58% nos 12 meses anteriores.

O Banco Central, por sua vez, reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano na reunião de setembro de 2026.

Esses números ajudam a compreender parte do cenário econômico, embora não contem toda a história.

A inflação mede a variação dos preços de uma cesta de produtos e serviços. Isso não significa que todos os itens ficaram mais caros exatamente na mesma proporção.

A Selic é a taxa básica de juros da economia, mas não corresponde diretamente aos juros cobrados em cada empréstimo ou cartão de crédito.

São indicadores diferentes, com efeitos importantes sobre consumo, crédito, investimento e planejamento das famílias.

O que considero essencial é que o debate econômico deixe de ser apenas uma competição de discursos.

Se o governo disser que a economia está melhorando, quero ver indicadores e entender seus efeitos sobre a população.

Se a oposição disser que tudo está piorando, quero conhecer os dados que sustentam a afirmação.

O problema de um argumento econômico não é contrariar minha preferência política. É não resistir a uma conferência dos números.

O cidadão não deve ser obrigado a escolher entre acreditar cegamente no governo ou acreditar cegamente na oposição.

Pode — e deve — exigir explicações dos dois.

5. Educação: porque nenhuma eleição substitui uma sala de aula funcionando

Como professor, considero impossível discutir o futuro do Brasil sem falar da educação.

Em 2026, foi aprovada a Lei nº 15.388, que instituiu um novo Plano Nacional de Educação.

Também houve a atualização do piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica para R$ 5.130,63, conforme a Lei nº 15.437/2026, observadas suas condições legais de aplicação.

São decisões relevantes.

Mas aprovar uma lei e transformar a realidade de uma escola são coisas diferentes.

Uma legislação pode estabelecer metas. Ela não substitui o planejamento, a formação dos professores, a infraestrutura, os materiais pedagógicos ou o acompanhamento da aprendizagem.

Uma escola precisa de muito mais do que uma placa bonita na entrada.

Precisa de professores em condições adequadas de trabalho, alunos aprendendo, gestores comprometidos e recursos utilizados corretamente.

Eu gostaria que a educação ocupasse durante todo o mandato o espaço que costuma receber nos discursos de campanha.

Porque uma criança que não aprendeu a ler adequadamente não ganha automaticamente essa aprendizagem quando muda o presidente.

E um aluno que enfrenta dificuldades em Matemática não resolve seu problema com propaganda institucional.

A educação exige continuidade, responsabilidade e resultados que possam ser demonstrados.

6. A oposição também precisa apresentar soluções

É perfeitamente legítimo discordar do governo eleito.

Na realidade, a fiscalização é uma das funções fundamentais da oposição em uma democracia.

Mas existe uma diferença enorme entre fiscalizar com responsabilidade e transformar cada dificuldade nacional em oportunidade para uma comemoração partidária.

Se uma política pública apresenta problemas, a oposição deve identificá-los, apresentar evidências, cobrar correções e, sempre que possível, propor alternativas.

Se uma medida produz resultados positivos, reconhecê-los não significa aderir ao governo.

Da mesma forma, quem apoia o presidente precisa compreender que questionar uma decisão governamental não representa traição política.

Partidos não deveriam funcionar como times de futebol.

No futebol, torcer é parte da diversão. Na administração pública, a preferência política não pode estar acima do interesse coletivo.

E aqui faço uma provocação: se uma proposta é boa apenas quando apresentada pelo meu partido, talvez o problema não esteja exatamente na proposta.

7. E as promessas de campanha?

Agora começa uma etapa que considero decisiva: transformar compromissos eleitorais em ações verificáveis.

Prometer é relativamente simples.

A dificuldade aparece quando chega o momento de definir de onde virá o dinheiro, quem executará a medida, quais serão os prazos e como os resultados serão avaliados.

Por isso, considero indispensável acompanhar as promessas do presidente reeleito e as propostas defendidas pelos demais representantes políticos.

Quero saber quais compromissos dependem diretamente do Poder Executivo, quais exigem aprovação do Congresso Nacional e quais envolvem responsabilidades de estados e municípios.

Essa distinção é importante.

O presidente não administra sozinho todos os serviços públicos brasileiros. Governadores, prefeitos, parlamentares e outros agentes também possuem competências e responsabilidades específicas.

Cobrar a pessoa errada pode até produzir uma publicação bastante barulhenta nas redes sociais.

Mas dificilmente resolve o problema.

Minha proposta é simples: menos frases de efeito e mais acompanhamento de decisões, indicadores, despesas e resultados.

8. O Maranhão e os municípios não podem ficar fora dessa conversa

Muitas vezes, o debate político nacional parece acontecer em um universo distante da realidade dos pequenos municípios.

Discute-se Brasília durante horas, mas pouco se pergunta sobre a situação concreta das escolas, das unidades de saúde, das estradas, da assistência social e dos serviços oferecidos à população.

Para mim, a política precisa ser analisada também a partir do lugar onde as pessoas vivem.

Em um município do interior do Maranhão, por exemplo, as consequências de uma política pública podem aparecer na disponibilidade de transporte escolar, no funcionamento de uma unidade de saúde, nas oportunidades de trabalho ou na infraestrutura urbana e rural.

Isso não significa atribuir automaticamente ao presidente toda dificuldade enfrentada por uma prefeitura.

Significa identificar corretamente as responsabilidades e acompanhar a aplicação dos recursos públicos.

O dinheiro público não pertence ao governante.

Pertence à sociedade e deve ser administrado conforme as leis, o orçamento e o interesse coletivo.

Essa compreensão deveria estar acima de qualquer disputa partidária.

9. O eleitor precisa deixar de ser apenas torcedor

Talvez este seja o maior desafio do período pós-eleitoral.

Precisamos superar a ideia de que nossa responsabilidade termina quando apertamos a tecla de confirmação da urna.

Um eleitor consciente acompanha as decisões públicas, procura fontes confiáveis, compara informações e questiona seus representantes.

Também reconhece quando estava equivocado.

E, convenhamos, reconhecer um erro político parece ser uma das tarefas mais difíceis da vida moderna.

Há pessoas capazes de passar horas tentando demonstrar que um político nunca errou, mesmo diante de fatos que deveriam motivar uma avaliação mais cuidadosa.

Não vejo qualquer obrigação de defender todos os atos de alguém simplesmente porque votei nessa pessoa.

Meu voto não é uma procuração para concordar com tudo.

É uma escolha política que continua sujeita ao acompanhamento e à cobrança.

O mesmo vale para quem votou no candidato derrotado.

O resultado de uma eleição não elimina o direito de participação, crítica ou fiscalização.

10. O Brasil precisa de menos espetáculo e mais responsabilidade

Lula venceu as eleições de 2026.

Flávio Bolsonaro foi derrotado.

Os resultados estão registrados oficialmente e devem ser tratados como fatos, independentemente das preferências individuais.

Mas o verdadeiro balanço do próximo período não poderá ser feito apenas com fotografias de autoridades, discursos emocionados ou publicações nas redes sociais.

Será necessário observar o desempenho econômico, as políticas sociais, os avanços educacionais, a segurança pública, a qualidade dos serviços e a capacidade de o Estado responder às necessidades da população.

E haverá espaço para críticas, elogios e correções de rumo.

Não pretendo avaliar o governo com base em simpatia pessoal, nem transformar a oposição em inimiga de quem pensa diferente.

Prefiro observar o que é prometido, o que é feito, quanto custa e qual resultado chega até a população.

Porque o Brasil não precisa que seus governantes sejam tratados como ídolos. Precisa que sejam cobrados como servidores da sociedade.

A urna decidiu quem venceu.

Agora resta descobrir quem terá disposição para enfrentar os problemas que continuam existindo depois da eleição.

E deixo uma última pergunta:

Quando a próxima conta chegar à sua casa, você pretende pagá-la com argumentos políticos ou continuará exigindo soluções concretas de quem pediu seu voto?

Referências e fontes consultadas

1. Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno das Eleições 2026. Publicado em 26 de outubro de 2026. Fonte oficial dos resultados, votação e participação eleitoral.

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/presidente-do-tse-anuncia-reeleicao-de-lula-e-faz-balanco-do-2o-turno-das-eleicoes-2026

2. Câmara dos Deputados — Agência Câmara de Notícias. Lula é reeleito presidente com quase 52% dos votos válidos no 2º turno. Publicado em 25 de outubro de 2026, atualizado em 26 de outubro. Utilizado para a comparação entre primeiro e segundo turnos.

https://www.camara.leg.br/noticias/1313705-lula-e-reeleito-presidente-com-quase-52-dos-votos-validos-no-2o-turno

3. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Indicadores econômicos — IPCA e mercado de trabalho. Consulta aos indicadores disponíveis até outubro de 2026.

https://www.ibge.gov.br/indicadores-economicos.html

4. Banco Central do Brasil. Comunicado do Copom — 281ª reunião, setembro de 2026. Decisão sobre a taxa Selic.

https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/comunicadoscopom/21261

5. Presidência da República. Lei nº 15.388, de 14 de abril de 2026. Aprova o Plano Nacional de Educação.

https://legislacao.presidencia.gov.br/atos/?ano=2026&ato=2eegXSE50djpWT33e&numero=15388&tipo=LEI

6. Senado Federal. Lei nº 15.437, de 18 de junho de 2026. Altera a legislação do piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica.

https://legis.senado.gov.br/norma/43429326/publicacao/43432378

Nota editorial: Os resultados eleitorais, indicadores econômicos e dispositivos legais apresentados são informações verificáveis. As interpretações críticas, comparações e provocações constituem opinião do autor. A legislação, os indicadores e os links devem ser conferidos novamente em caso de republicação posterior.

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