Na primeira carta de Pedro, os presbíteros são chamados a cuidar do rebanho de Deus, com disposição e boa vontade, sem ganância e sem agir como dominadores; devem ser exemplos. Pedro também aponta para Cristo como o Supremo Pastor.
Notem a expressão: o rebanho é de Deus. Não pertence ao pastor, ao dirigente, ao fundador de um departamento ou à pessoa que possui maior tempo de serviço. Quem lidera recebe uma responsabilidade; não adquire propriedade sobre pessoas.
Isso muda completamente a maneira de lidar com os membros da comunidade. O cuidado não pode ser condicionado a favores pessoais, lealdade cega ou silêncio diante de erros. A confiança precisa caminhar com prestação de contas. A correção pastoral precisa preservar a dignidade. Toda liderança deve reconhecer os próprios limites.
O profeta Ezequiel já havia denunciado pastores que se alimentavam enquanto negligenciavam o rebanho (Ezequiel 34). O problema não era simplesmente uma falha de organização. Era o abandono daqueles que tinham direito ao cuidado.
Eu posso ter um calendário cheio e, ainda assim, negligenciar pessoas. Posso ter uma equipe numerosa e, ainda assim, não conhecer as dificuldades de quem caminha comigo. Posso cobrar presença em todos os cultos e não perceber a pessoa que desapareceu porque está sofrendo.
Se alguém está fraco, minha primeira pergunta não pode ser apenas: “Por que faltou?” Talvez eu deva começar com: “Como você está? Há algo em que podemos ajudar?” Isso não elimina a responsabilidade pessoal de cada membro, mas permite que a verdade seja acompanhada de compaixão.
É preciso dizer também, com clareza, que cuidar não significa esconder violência, acobertar abusos, exigir submissão incondicional ou impedir alguém de procurar proteção e ajuda apropriada. Quando existem riscos à integridade de uma pessoa, proteger, acolher e encaminhar adequadamente também fazem parte da responsabilidade de quem lidera.
Corrigir com mansidão é diferente de encobrir o erro
O apóstolo Paulo orienta, em Gálatas 6:1–2, que aqueles que são espirituais procurem restaurar com mansidão quem foi surpreendido em alguma falta, observando a si mesmos e ajudando a carregar os fardos uns dos outros.
A palavra importante aqui é restaurar. A meta não é vencer uma discussão, exibir autoridade ou fabricar um exemplo público para assustar os demais. A meta é chamar à verdade e, quando possível, restaurar a pessoa com responsabilidade e cuidado.
Isso não significa ignorar ofensas graves ou eliminar consequências. Em situações de abuso, fraude, violência ou risco, medidas de proteção, apuração e eventual comunicação às autoridades podem ser necessárias. A mansidão cristã não é permissividade; e a justiça não precisa ser exercida com humilhação.
Na liderança cotidiana, há uma diferença entre dizer: “Você não serve para nada”, e dizer: “Isso que aconteceu precisa mudar; vamos conversar sobre como corrigir”. A primeira fala reduz a pessoa ao erro; a segunda reconhece o erro sem negar a possibilidade de crescimento.
Quem ama também estabelece limites. Mas o amor se recusa a transformar limites em instrumentos de vingança.
Pergunta para exame pessoal: quando alguém erra perto de mim, minha atitude deixa mais claro que eu quero sua restauração ou que eu desejo provar meu poder?
Atos 6: espiritualidade também precisa de atenção às necessidades
Em Atos 6:1–7, a comunidade cristã enfrenta um problema concreto: algumas viúvas estão sendo negligenciadas na distribuição diária. Os apóstolos não respondem fingindo que a situação é pequena nem limitam a questão a um discurso sobre paciência. A comunidade organiza responsabilidades para que a necessidade seja atendida e a missão da Palavra e da oração prossiga.
Essa passagem é preciosa porque mostra que cuidado não é apenas sentimento; cuidado precisa de ações, critérios e pessoas responsáveis.
Por vezes, desejamos resolver problemas complexos somente com frases espirituais. Mas há situações que exigem uma visita, uma escala justa, um procedimento de acolhimento, transparência na utilização de recursos, treinamento de voluntários e acompanhamento dos necessitados.
Planejar bem não é falta de espiritualidade. No contexto adequado, organização é uma forma de impedir que alguém seja esquecido.
A pergunta, portanto, não é somente se temos ministérios e departamentos. É se eles cumprem a finalidade de servir às pessoas e à missão de Cristo.
Imaginem agora a rotina de uma congregação: há irmãos idosos que precisam de visita, crianças em formação, pessoas recém-convertidas com dúvidas, jovens que enfrentam pressões e famílias atravessando dificuldades. Não podemos tratar tudo isso como se a igreja fosse apenas uma sequência de cultos e escalas. O nosso ajuntamento deve expressar fé, comunhão e cuidado.
Isso não diminui a pregação, a doutrina ou a oração. Ao contrário: quem recebe a Palavra e se aproxima de Deus aprende a não ignorar aquele que sofre. Uma igreja que ora com fervor também precisa aprender a servir com fidelidade.